martes, 28 de abril de 2009

LA MUJER SIN CABEZA


Em tudo o mais “La Mujer Sin Cabeza” continua a ser plenamente o cinema de Lucrecia Martel. Os locais exíguos são os espaços de contaminação onde evolui uma certa promiscuidade das relações familiares: o pântano, a piscina, os quartos são os pontos de contacto onde a proximidade adensa pulsões interiores e o contacto dos corpos. Nessa proximidade, a tarefa de auto-descoberta identitária de cada um torna-se mais flagrante. A descoberta sexual e espiritual de “La Nina Santa” dá aqui lugar ao élan lésbico da sobrinha pela tia (“as cartas de amor são para se responder ou para se devolverem”) ou à própria relação adúltera que Vero mantém com o primo.

Quando as confirmações do dia da tormenta, o dia fatídico, se vão desmentindo (tudo o que se passou “es vero?”), é tempo para novo baptismo, e Vero, antes loura, surge agora de cabelo negro, em aberta homenagem a essoutro desfasamento identitário de Kim Novak em “Vertigo”. Assim, a dita cabeça “solta” da realidade vai começar a colocar-se lentamente de novo sob os ombros. Mas essa integração não é completa. Por isso, o último plano de Vero na reunião familiar de sexta à noite surge desfocado e entremeado por um vidro. Mais uma vez, a argentina filma o “ainda” e o “já não”, com a esperteza de uma criança ousada.

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